Pensando sobre minha atual situação, cheguei a uma reflexão sobre o adjetivo sozinho. Obviamente, sozinho vem do só. Só é o ser avulso, ímpar, sem acompanhamento: um contexto deveras doloroso e nada interessante para qualquer coisa que respire (salvo exceções como os tigres que caçam sós, os monges e as solitárias? Estas, por motivos óbvios). De tão deprimente que é o fato de se estar só e com o intuito de eufemizar o sofrimento, alguém calçou um diminutivo no pesadelo e daí nasceu ele, o sozinho.
- Mas de onde você tirou isso?
- Pô, coitado dele? tá sofrendo tanto? Dá uma peninha?
- Só porque ele é só?
- Ui, não fala assim? Ele é... sozinho, né?
O problema de se estar sozinho, ao contrário de se estar só, é que o sozinho é choroso e vive divulgando abertamente a sua condição. O só é mais introspectivo e disfarça tão bem que todos chegam a pensar que ele não se importa em cozinhar pra uma pessoa apenas e conversar com o espelho. Claro, o só chora um pouquinho, mas quando ninguém vê, só quando está sozinho.
Pensando dessa forma, percebo que venho vivendo de só a sozinha. No começo era interessante ficar a tarde toda pensando, quantidades, cozinhar só uma pequena quantidade (ando um tanto quanto doméstica ultimamente), escolher aqueles filmes que só eu gosto sem precisar me preocupar com quem mais assistiria, andar por aí sem voltar correndo pra casa porque alguém poderia estar me esperando pra jantar e conversar sobre o dia ou discutir sobre quem deve ir para o paredão no BBB.
Conversar com meu super amigo imaginário hiper-ativo destruidor de papéis importantes (os quais eu perco sozinha) foi perdendo aquele charme que tem nos filmes.
Foi assim que percebi ter alcançado o estado de sozinha chorosa e, dando bandeira quando vou à video-locadora, soltando algo como: - Preciso de um monte de filmes para preencher meu tempo, minha vida anda uma bela merda. Pronto! Mundo, sofra por mim! Eu não tenho companhia! Ah! Que decadente.
Então acabei me dando conta de uma coisa que eu até já sabia, mas tentava ignorar: mesmo seres naturalmente avulsos como eu, precisam de outros seres? Acompanhados ou não? Ao redor. Alguém sem par em meio a outras pessoas é alguém sem par e pronto. Mas alguém sem par e isolado do restante é alguém sem nada. E o sozinho quando somado ao vazio, termina em solidão. E dói.
É sabido que eu não sou do tipo que anda por aí procurando loucamente por um par. Estou mais preocupada com trios, quartetos, grupos enormes, barulhentos e confusos. Preciso dos meus. (Falei. E nem doeu).